domingo, 15 de outubro de 2017

Diferenças e necessidades especiais na escola


Avestruzes e crocodilos: como agimos?


    Uma avestruz, frente a algo que não quer enfrentar, coloca sua cabeça dentro da terra, não enxergando e não existindo, ao ser ver, o problema. A atitude da avestruz demonstra atenuação da situação, o não enfrentamento mesmo sabendo da existência da mesma, como uma fuga temporária.
    Crocodilos agem submersos e abocanham vítimas desatentas. Ele está aí, tranquilo, e quem ele encontra no seu espaço, é o culpado por isso e irá morrer, ou apenas “virar refeição”. Crocodilos, na Idade média, viviam em fossos ao redor de castelos, tornando o acesso perigoso demais. A porta do castelo abria somente de dentro pra fora, formando uma ponte, sob a ordem do rei ou seus súditos diretos, mediante análise. Se quem estivesse fora quisesse entrar e fazer parte do “mundo” do castelo teria que pedir permissão ou transpassar o fosso e pular o muro.


    Esta metáfora vem ao encontro de situações do cotidiano, na esfera escolar. Dentro do castelo há o saber, a convivência, o respeito às diferenças, as formas de aprender, a acessibilidade, a vontade de ajudar neste processo por quem habita o castelo. O fosso representa o preconceito, os rótulos e dificuldades que a escola tem de se adaptar ao aluno diferente. Os crocodilos são as desculpas e a acomodação para não ter que fazer nada a respeito. A ponte é o direito ao acesso, que deveria estar estendida para todos. Será que nossas escolas, e mesmo nós, como professores, estamos estendendo esta ponte, ao largando aos crocodilos? Ou mesmo estendendo a ponte, que condições oferecemos ao alunos, sem que o vejamos como incômodo?
     Alunos que chegam à escola com alguma deficiência física ou mental tem direito à educação de qualidade com a utilização de recursos materiais e pedagógicos  que possibilitem o máximo de aprendizado e interação, de acordo com sua deficiência. A deficiência faz com que tenham limitações e precisa-se buscar outras formas de chegar ao aprendizado, usando braile, a língua de sinais, ou ao menos começando por procurar informações sobre a deficiência e suas restrições, que incapacitam para determinadas funções, assim como possibilidades que podem ser avivadas. A situação de desvantagem do aluno aos parâmetros “normais” de técnicas em sala de aula precisa ser revisto, pois a escola como um todo precisa se adaptar ao deficiente, e não este ficar à deriva dentro do educandário.
   O aluno com síndromes ou deficiência tem direito a acompanhamento em suas necessidades fisiológicas, e assim como todos os outros, direito à dignidade e respeito como ser humano. E a escola é o lugar que se constrói e se aprende a convivência e a cidadania.
   Por vezes somos contempladas com alunos ditos “difíceis”, vindos de famílias desestruturadas ou condição social vulnerável, ou mesmo com transtornos diversos e nem sempre nossa aceitação é imediata. Almejamos ter um ano letivo tranquilo, sem percalços, mas quando temos alunos nestas condições entramos, não raro, em estado de alerta e nosso “castelo” desmorona. Mas aí está a batalha contra os crocodilos que querem invadir o castelo, então o que fazemos? Podemos ser uma avestruz ou arregaçar as mangas e fazermos a diferença na vida escolar (e até pessoal) daquele aluno.

Referências:
AMARAL, Lígia Assunpção. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação. Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricase práticas/coordenação de Júlio Groppa Aquino. São Paulo. Editora Summus. 1988.


Nenhum comentário:

Postar um comentário