Trabalho há quinze anos com educação infantil e tive vários alunos com altas habilidades, um desempenho destacado em algum aspecto nos seus desenvolvimentos.
Porém, ao longo dos anos, muitas situações se apresentaram e equivocadamente, não compreendemos e nem tomamos nenhuma atitude para acompanhar, conduzir ou favorecer o aluno, por desconhecimento. Ocorreu que confundimos as características de alunos com altas habilidades com um problema.
O caso mais interessante foi de um aluno do Berçário 2, que há 14 anos atrás, passava as tardes correndo em círculos ao redor da sala e não se socializava. No ano seguinte o tive novamente, então no Maternal, e se mostrava impaciente, hiperativo, não participava de nenhuma atividade proposta, brincava sempre isolado, falava sozinho coisas desconexas e corria pelo pátio com um graveto apontando para o céu. Lembrava muito o personagem do filme “Uma mente brilhante” (Ron Howard, 2001) e realmente estava certa. Na época chegamos a pensar em autismo ou um déficit intelectual, mas a verdade só se revelou quando ingressou no ensino fundamental.
O aluno em questão, hoje, tem um altíssimo nível cognitivo e é um expert em diversas áreas do conhecimento. Já foi premiado em várias olimpíadas de matemática e homenageado a nível estadual por projetos de Ciências, recebendo cursos e bolsas por seu desempenho. Em inglês está em um nível avançado para sua idade, destacando-se consideravelmente.
Acredito que a rotina escolar deve ter sido tediosa e sua energia precisava ser liberada. Seus pensamentos, certamente, estavam bem além das atividades que eram sugeridas. Suas habilidades eram outras e estavam se articulando em sua mente.
Esta situação poderia ter sido tratada de outra maneira, como até chegamos a pensar na época, com um atendimento individualizado e com uma sala de recursos, onde poderia realizar as coisas que gostava, mas por desconhecimento nada foi feito. E ainda surgiu a questão: “porque ele tem que ter atendimento diferenciado, se não é diferente de ninguém”, “se os outros tem que se adaptar, ele também tem que se acostumar.” Durante a hora do soninho era um stress enorme, pois ele rolava de um lado para o outro, suava e ficava impaciente, sem nunca dormir.
Atualmente existe um esclarecimento maior a respeito dos superdotados e com altas habilidades, mas as características apresentadas no caso exemplificado foram mal interpretadas, como falta de limites em casa e talvez alguma perturbação ou retardo. Se tivéssemos uma orientação, a respeito do seu comportamento, de um psicólogo poderíamos ter olhado este aluno com outros olhos e assistido melhor em suas diferenças.
Referências:
Cupertino, Christina Menna Barreto. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Um olhar para as altas habilidades: construindo caminhos/Secretaria da Educação, CENP/CAPE; organização, São Paulo: FDE, 2008


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