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sábado, 11 de novembro de 2017

Altas habilidades: característica ou problema?

     Trabalho há quinze anos com educação infantil e tive vários alunos com altas habilidades, um desempenho destacado em algum aspecto nos seus desenvolvimentos.

    Porém, ao longo dos anos, muitas situações se apresentaram e equivocadamente, não compreendemos e nem tomamos nenhuma atitude para acompanhar, conduzir ou favorecer o aluno, por desconhecimento. Ocorreu que confundimos as características de alunos com altas habilidades com um problema.
     O caso mais interessante foi de um aluno do Berçário 2, que há 14 anos atrás, passava as tardes correndo em círculos ao redor da sala e não se socializava. No ano seguinte o tive novamente, então no Maternal, e se mostrava impaciente, hiperativo, não participava de nenhuma atividade proposta, brincava sempre isolado, falava sozinho coisas desconexas e corria pelo pátio com um graveto apontando para o céu. Lembrava muito o personagem do filme “Uma mente brilhante” (Ron Howard, 2001) e realmente estava certa. Na época chegamos a pensar em autismo ou um déficit intelectual, mas a verdade só se revelou quando ingressou no ensino fundamental. 
     O aluno em questão, hoje, tem um altíssimo nível cognitivo e é um expert em diversas áreas do conhecimento. Já foi premiado em várias olimpíadas de matemática e homenageado a nível estadual por projetos de Ciências, recebendo cursos e bolsas por seu desempenho. Em inglês está em um nível avançado para sua idade, destacando-se consideravelmente.

   Acredito que a rotina escolar deve ter sido tediosa e sua energia precisava ser liberada. Seus pensamentos, certamente, estavam bem além das atividades que eram sugeridas. Suas habilidades eram outras e estavam se articulando em sua mente.

    Esta situação poderia ter sido tratada de outra maneira, como até chegamos a pensar na época, com um atendimento individualizado e com uma sala de recursos, onde poderia realizar as coisas que gostava, mas por desconhecimento nada foi feito. E ainda surgiu a questão: “porque ele tem que ter atendimento diferenciado, se não é diferente de ninguém”, “se os outros tem que se adaptar, ele também tem que se acostumar.” Durante a hora do soninho era um stress enorme, pois ele rolava de um lado para o outro, suava e ficava impaciente, sem nunca dormir. 
     Atualmente existe um esclarecimento maior a respeito dos superdotados e com altas habilidades, mas as características apresentadas no caso exemplificado foram mal interpretadas, como falta de limites em casa e talvez alguma perturbação ou retardo. Se tivéssemos uma orientação, a respeito do seu comportamento, de um psicólogo poderíamos ter olhado este aluno com outros olhos e assistido melhor em suas diferenças.



Referências:
 Cupertino, Christina Menna Barreto. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Um olhar para as altas habilidades: construindo caminhos/Secretaria da Educação, CENP/CAPE; organização, São Paulo: FDE, 2008


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Deficientes: aspectos a serem considerados



           Quantas vezes percebemos a forma errada que são tratados os deficientes físicos ou mentais. As pessoas ficam apreensivas frente ao diferente e, sem informação, agem equivocadamente.

          Ao encontrarmos uma pessoa com deficiência  pensamos em como lidar com sua limitação, querendo ajudar, e pode ocorrer de generalizarmos sua condição, tratando um cego como se não ouvisse, por exemplo, exagerando em nossas preocupações. Sabe-se que o portador de alguma necessidade especial não quer ser tratado como inválido, digno de pena e precisando de suporte o tempo todo, mas quer respeito por ser exatamente como é: com alguma limitação, mas que pode ser adaptada e ter uma vida plena, fazendo valer seus direitos, capacidades e possibilidades, quando, não raro, maiores que de outros chamados normais.

     Percebo também a superproteção que algumas vezes recebem, pois, exemplificando, tenho uma sobrinha com déficit intelectual, decorrente de falta de oxigenação ultra uterina no final da gestação. Sua mãe demorou muito para aceitar a situação e quando finalmente o fez. sempre tratou a menina como não sendo capaz de inúmeras tarefas e funções, deixando-a dependente, sempre suprindo todas necessidades
      Outro fato é a vulnerabilidade dos deficientes mentais/intelectuais, pois facilmente são explorados e viram alvo de chacotas e abusos, vista a fragilidade de sua condição.   Do mesmo modo, a sua necessidade de agradar faz com que falem coisas contra sua verdade e se expõem desnecessariamente. 






domingo, 15 de outubro de 2017

Diferenças e necessidades especiais na escola


Avestruzes e crocodilos: como agimos?


    Uma avestruz, frente a algo que não quer enfrentar, coloca sua cabeça dentro da terra, não enxergando e não existindo, ao ser ver, o problema. A atitude da avestruz demonstra atenuação da situação, o não enfrentamento mesmo sabendo da existência da mesma, como uma fuga temporária.
    Crocodilos agem submersos e abocanham vítimas desatentas. Ele está aí, tranquilo, e quem ele encontra no seu espaço, é o culpado por isso e irá morrer, ou apenas “virar refeição”. Crocodilos, na Idade média, viviam em fossos ao redor de castelos, tornando o acesso perigoso demais. A porta do castelo abria somente de dentro pra fora, formando uma ponte, sob a ordem do rei ou seus súditos diretos, mediante análise. Se quem estivesse fora quisesse entrar e fazer parte do “mundo” do castelo teria que pedir permissão ou transpassar o fosso e pular o muro.


    Esta metáfora vem ao encontro de situações do cotidiano, na esfera escolar. Dentro do castelo há o saber, a convivência, o respeito às diferenças, as formas de aprender, a acessibilidade, a vontade de ajudar neste processo por quem habita o castelo. O fosso representa o preconceito, os rótulos e dificuldades que a escola tem de se adaptar ao aluno diferente. Os crocodilos são as desculpas e a acomodação para não ter que fazer nada a respeito. A ponte é o direito ao acesso, que deveria estar estendida para todos. Será que nossas escolas, e mesmo nós, como professores, estamos estendendo esta ponte, ao largando aos crocodilos? Ou mesmo estendendo a ponte, que condições oferecemos ao alunos, sem que o vejamos como incômodo?
     Alunos que chegam à escola com alguma deficiência física ou mental tem direito à educação de qualidade com a utilização de recursos materiais e pedagógicos  que possibilitem o máximo de aprendizado e interação, de acordo com sua deficiência. A deficiência faz com que tenham limitações e precisa-se buscar outras formas de chegar ao aprendizado, usando braile, a língua de sinais, ou ao menos começando por procurar informações sobre a deficiência e suas restrições, que incapacitam para determinadas funções, assim como possibilidades que podem ser avivadas. A situação de desvantagem do aluno aos parâmetros “normais” de técnicas em sala de aula precisa ser revisto, pois a escola como um todo precisa se adaptar ao deficiente, e não este ficar à deriva dentro do educandário.
   O aluno com síndromes ou deficiência tem direito a acompanhamento em suas necessidades fisiológicas, e assim como todos os outros, direito à dignidade e respeito como ser humano. E a escola é o lugar que se constrói e se aprende a convivência e a cidadania.
   Por vezes somos contempladas com alunos ditos “difíceis”, vindos de famílias desestruturadas ou condição social vulnerável, ou mesmo com transtornos diversos e nem sempre nossa aceitação é imediata. Almejamos ter um ano letivo tranquilo, sem percalços, mas quando temos alunos nestas condições entramos, não raro, em estado de alerta e nosso “castelo” desmorona. Mas aí está a batalha contra os crocodilos que querem invadir o castelo, então o que fazemos? Podemos ser uma avestruz ou arregaçar as mangas e fazermos a diferença na vida escolar (e até pessoal) daquele aluno.

Referências:
AMARAL, Lígia Assunpção. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação. Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricase práticas/coordenação de Júlio Groppa Aquino. São Paulo. Editora Summus. 1988.


sábado, 9 de setembro de 2017

Desafios


     O maior desafio, em se tratando de pessoas com algum tipo de necessidade especial, é vencer o preconceito. Ser tratado com respeito, amabilidade, dignidade. Ter educação, os direitos assegurados e uma vida cheia de possibilidades mesmo na limitação.
    Confesso que, como tanta gente, tenho certa aflição ao lidar com pessoas que tenham algo diferente do "comum". Percebo o quanto não estamos preparados para isso, pois é algo que aflige mais pessoas, por desconhecimento ou simplesmente por pouca convivência. Temos, vergonhosamente, uma certa dose de "compaixão", nos colocamos no lugar deles e entendemos as dificuldades que tem e o "trabalho" de seus familiares. Porém, o portador de alguma necessidade especial quer exatamente o contrário: não quer ser visto como alguém descomunal, digno de pena e muito menos gerador de transtornos e peso para os seus, mas como ser humano, igual a todos em direitos e respeito.

    Historicamente, é relativamente recente esta visão no Brasil e no mundo. Ora, como devia ser horrível viver na Idade Média, por exemplo, onde a escuridão das mentes pairava sobre a humanidade! E não somente em relação aos deficientes físicos ou mentais, mas para inúmeras questões, de saúde, higiene, religião, sexo, etc. Nos tempos das fogueiras, da inquisição, do desconhecimento e do preconceito. Mais adiante, com os avanços da Ciência, e falando em religião, com o  cristianismo, começou a surgir uma luz para a humanidade.
   No século XIX começaram os estudos mais profundos da mente humana, da psiquiatria, da genética. As diferenças começaram a ser vistas com outros olhos, para alívio e consideração a tantas pessoas acometidas por mazelas diversas, síndromes, distúrbios, transtornos e deficiências. Passou a haver a possibilidade de educação, de inserção social, de convívio sem preconceito, de formas de tratamento. Pasmem, até despojados de alma eram vistos em outros tempos!

     Grandes avanços e vitórias foram surgindo e a maior delas, vencer o preconceito, que ainda existe, mas em reduzida escala. Os portadores de necessidades especiais passaram a ser amparados por lei, assistidos e ouvidos. Hoje vemos deficientes no mercado de trabalho, se comunicando por sinais, lendo em braile, participando ativamente da vida em sociedade. E não mais merecedores de compaixão, mas sim, de admiração e respeito, como todo ser humano.

     Em termos de escola, a educação deve ser inclusiva, onde o portador de necessidades educacionais especiais possa conviver com todos, aprender junto, apesar das dificuldades e limitações.
       
"Ao invés de o aluno ajustar-se aos padrões de “normalidade” para aprender, a escola deve ajustar-se à “diversidade” dos seus alunos. Pessoas com deficiência mental são as que mais necessitam de apoio educacional porque esse tipo de deficiência é o mais frequente na população, requerendo, portanto, uma atenção maior do sistema escolar. A educação inclusiva é um processo em que se amplia a participação de todos os estudantes nos estabelecimentos de ensino regular. Trata-se de uma reestruturação da cultura, da prática e das políticas vivenciadas nas escolas de modo que estas respondam à diversidade de alunos. É uma abordagem humanística, democrática, que percebe o sujeito e suas singularidades, tendo como objetivos o crescimento, a satisfação pessoal e a inserção social de todos." (Rodrigues)

     Portanto, como professores, o desafio se torna maior ainda: além de vencermos os próprios desafios, fomentar a convivência respeitosa entre os alunos e proporcionar ao portador de necessidades educacionais especiais, um aprendizado coerente, dentro de suas potencialidades.


Referencias:

Rodrigues, Olga Maria Piazentin Rolim. Educação especial: história, etiologia,
conceitos e legislação vigente / Olga Maria Piazentim Rolim Rodrigues, Elisandra
André Maranhe. In: Práticas em educação especial e inclusiva na área da deficiência
mental / Vera Lúcia Messias Fialho Capellini (org.). – Bauru: MEC/FC/SEE, 2008.