sábado, 4 de maio de 2019

Críticos e saudosistas em tempos líquidos

      Após uma reunião de pais, alguns se admiraram da quantidade de turmas e de profissionais que atuam  na escola infantil: professoras, várias monitoras e estagiárias. Em outro momento, conversando com um pai pouco instruído, e pouco aberto às mudanças no mundo, este me disse que antigamente, no seu tempo de escola, uma só professora dava conta de 40 ou 50 crianças, nas turmas multisseriadas de anos iniciais.
      Posso, de certo modo, até concordar com o que este homem que parou no tempo falou. Argumentei que os tempos eram outros, que nem televisão se tinha em casa, que não havia internet, que tudo era mais lento, sólido e familiar, que não havia este bombardeio de informações que passam pela mente das crianças e adolescentes, e que naquele tempo, a rotina era simples e depois iam dormir. Tudo que eu dizia me pareceu inútil frente os argumentos do senhor em questão.
     Mais tarde comecei a refletir sobre este mundo que vivemos hoje, e a própria escola, que passa por muitas críticas, aos olhos de pessoas que não compreendem o mundo atual, ou relutam em aceitarem as transformações. Embora as inovações tecnológicas sejam magníficas, posso até dizer, um salto evolutivo da humanidade, perdeu-se muito nas questões de respeito, de valorização do professor, do fazer silêncio, da própria concentração nos estudos. Também pudera, com tantas informações entrando na mente, desde o nascimento, conexões e a globalização, como manter o foco?
    As premissas: "Vida em movimento, contínua mudança, o ser humano em transformação", retratam os tempos atuais.
      “Estas premissas embasam o pensamento pós moderno. A velocidade do tempo nos dias de hoje não permite estagnações, crenças absolutas e nem plena confiança no que quer que seja. Nada é imutável, insubstituível ou constante. Poucas coisas são definitivas ou duradouras.”(Aprendizados, 2018)
   
      Estes novos tempos, que aquele pai nega-se a considerar, são o que Bauman chama de “Tempos líquidos.” Segundo Zigmuth Bauman, sociólogo polonês, a base do pós modernismo é  a inconsistência, a liquidez, o excesso, o consumismo. “Vivemos em tempos líquidos. Nada foi feito para durar” (BAUMAN). Até mesmo o que ensinamos hoje pode ser modificado amanhã, dadas as descobertas da humanidade.

    Em relação ao saudosismo do pai, assim como o de muitas outras pessoas, pergunto, em meio a alunos hiper informados, conectados, barulhentos, ativos, questionadores e por vezes, pouco respeitosos: Como educar as crianças nestes tempos líquidos? 
    Cabe à escola promover uma educação que vá além de conteúdos a serem decorados, mas que o aluno aprenda a compartilhar conhecimentos,  saiba pesquisar, pensar com autonomia, senso crítico e discernimento. E que aprendam a aprender constantemente. 
      Que resposta poderia dar aos pais saudosistas? Que percebam as transformações e trabalhem a favor da educação e não fazendo comparações que depreciam o nosso trabalho. A educação, muitas vezes, deve ser dada aos pais também. Que percebam a velocidade do mundo de hoje e saibam o que é educar/ensinar uma criança nestes tempos líquidos. E assim, sejam nossos parceiros, em vez de críticos sem fundamentação.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro. Editora Jorge Zahar. 2007.

KERBER, Cláudia Simone. Infância pós-moderna – 2. Aprendizados. 2018. Acesso em: http://claudiasimoneblogpead.blogspot.com/2018/12/infancia-pos-moderna-2.html

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