sábado, 14 de novembro de 2015

O desejo de saber


    O desejo de saber surge na criança a partir da descoberta que o outro é diferente, que o corpo de um menino difere de uma menina, ou que ideias e opiniões podem ser distintas entre um homem e uma mulher. A angústia que sentimos desde o nascimento, por percebermos que o seio materno não é mais oferecido, que as fezes saem da gente e vão embora... São exemplos que mostram que estamos em constante luta para compreendermos a vida, o mundo, as perdas.

    O desejo de saber como são as coisas, como funcionam, como acontecem, brotam desta frustração e surgem as pulsões, que são canalizadas para o conhecimento, em diversas áreas.

   Quando vai a escola, a criança, de certa forma, é disciplinada e tem que seguir as normas da escola. Seu desejo de saber é direcionado para os ensinamentos do professor, para conteúdos pré-determinados. 

   A partir daí começa uma interação professor-aluno, comumente amorosa. O professor surge como uma referencia na vida do aluno, muitas vezes comparada a relação parental, em substituição, naquele tempo e espaço, da  figura materna ou paterna. 

     Na transmissão do conhecimento ocorre uma transferência de saberes, embora o que é transmitido pelo professor é mentalmente selecionado pelo aluno, frente á vasta gama de interesses que ele tem. Porém o professor continua repassando, mesmo sabendo que nem tudo será assimilado.  


   Trabalhando com crianças em torno de 18 meses a 2 anos, ocorre exatamente assim: uma intensa troca afetiva, a figura da professora como aquela que ensina as primeiras noções de viver em sociedade, a cantar, a ouvir histórias, a ter cuidado com a higiene e cuidado do corpo, a segurar a colher, por exemplo.

  Mas também é aquela pessoa que faz a transferência, recebe a contratransferência toda vez que é surpreendida, como também confirma com seu olhar que há muito de interessante neste mundo para descobrir e sempre responde a todos os porquês com um sorriso.



terça-feira, 10 de novembro de 2015

Em defesa das suas próprias angústias



    O estudo da Psicologia nos ajuda a compreender incógnitas que nos intrigam sobre a mente humana. No curso de Pedagogia o estudo é direcionado à prática pedagógica, porém usufruímos os conhecimentos em causa própria.
    Um exemplo são os mecanismos de defesa, pois sempre me chamou a atenção atitudes, minhas e de outras pessoas, que fogem ao parâmetro normal, de quem somos e do que acreditamos.

   



  Como explicar que uma pessoa sensata, com a mente lúcida e aberta, de repente nega a existência de um problema, não condizendo com sua personalidade.
   Ou aquela pessoa que de uma hora para outra começa a justificar, elaborando explicações e acaba acreditando em sua própria história, na verdade racionalizando algo que lhe angustia.

   Muitas também são as situações de repressão, deslocamento ou regressão que podemos perceber por aí. A pergunta é: como funciona nossa mente, uma vez que conscientemente temos uma conduta, e sem mais nem menos nos defendemos de nossas emoções, nossas angústias, de maneira sorrateira, sem coerência?
   Mas esta é mais uma questão que, como diz a velha frase: "só Freud explica!"


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Meu conceito de criança


  As crianças podem ser definidas baseando-se por três conceitos - modos de compreender e dimensionar a infância.

  Alguns conceituam como selvagem, pois a criança é um ser menos evoluído, menos desenvolvido e que necessita uma explicação. É vista como algo particular que já fomos e a imortalidade do seu futuro imanente; uma comunidade estável e previsível que todos fizeram parte um dia.

   Para outros a infância é natural, pois ser criança é normal e a convivência com elas é natural. A mudança de fase vem marcada por ritos de passagem, cerimônias ou apenas vem com significados ideológicos. A criança é um ser que vai maturando, conforme o desenvolvimento biológico e cognitivo.

  Sob outro ponto de vista, a criança é um ser social, visto que a infância é uma fase da vida que a criança -tábua rasa - se prepara para a convivência futura, para tornar-se um ser cultural e credível.

  A minha prática pedagógica está orientada pelo conceito da criança NATURAL, pois as vejo como pessoas que estão conhecendo o mundo, e nós, como adultos educadores, temos que guiá-los para que o seu desenvolvimento seja integral.
  Devemos favorecer o crescimento saudável, estimular as suas potencialidades e prover meios para que possam aprender, bem como estimular as capacidades cognitivas. Mas, acima de tudo, permitir que brinquem, explorem o ambiente, construam conhecimentos, interajam com os demais.


  Penso que a infância é uma riquíssima etapa da vida e existem sim, ritos de mudança criados pela sociedade. Ao sair da educação infantil fazemos uma formatura, o primeiro rito de passagem. Depois, vão surgindo outras cerimônias, algumas religiosas, que anunciam uma nova etapa.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Desenvolvimento da linguagem


   Uma das fases mais bonitas da vida de uma criança é quando ela começa a falar. Como pais ou educadores ficamos encantados ao ouvirmos as primeiras sílabas e segmentos fonéticos de uma palavra.
  
  Como trabalho com crianças em torno de dois anos, presencio diariamente estes avanços e vejo a alegria deles por conseguirem expressar verbalmente o nome dos colegas, algo que desejam ou mesmo um desagrado.
  Hoje pela manhã um menino falava "zés, zés" e ele sorria, chamando seu colega Moisés. Da mesma forma, dizer "é" para concordar com algo que eu digo, ou "ka ne", solicitando mais um pedacinho de carne no almoço. Aos poucos vão reproduzindo os sons e articulando as sílabas para se comunicarem.
   
  Saber acompanhar e estimular conforme a fase da criança é um dos grandes e maravilhosos desafios do professor de educação infantil. 
  Procuro sempre conversar muito com as crianças para que aprendam novas palavrinhas e a fala correta, mas sem interferir corrigindo, para que o aprendizado ocorra naturalmente. Geralmente concordo ou indago o que disseram, repetindo na fala certa.
 


 Mais tarde, no maternal, irão começar a se interessar pelo nome, pela escrita das palavras, gradualmente. Por enquanto ofereço revistas e folders para folhearem, fazemos leitura visual de livros e leio histórias para eles, mostrando as páginas.

  Com certeza são aprendizados significativos para o desenvolvimento da linguagem, em todo um mundo para conhecer e explorar.

domingo, 1 de novembro de 2015

Infância soft


  Desde sempre me chamou a atenção as imagens lindas de bebês fofos em revistas para mães. As capas já traziam a imagem de um lindo bebê, geralmente loirinho, de enormes olhos claros, redondinho, limpo, provavelmente cheiroso e muito amado.
   Obviamente que a imagem soft da capa era o apelo comercial para a compra da revista, pois toda mamãe deseja que seu bebê seja assim, um fofo, saudável e com todos os encantos possíveis. Como que a revista venderia seus exemplares com um bebê comum, com brotoejas ou subnutrido, por exemplo, sem a aura leve e delicada?
  Nos anos 50 e 60 já circulavam revistas do gênero, e minha mãe guardava alguns exemplares, e desde aquela época os bebês já eram retratados desta forma. Haviam propagandas de produtos com desenhos ou fotos de carinhas adoráveis e fofas.                                                                                  .anos 50
   A idealização da infância é cultural e faz parte do sonho de toda mulher que tem um filho, focando o lado meigo e ocultando as imperfeições, as deficiências, carências e desencantos da maternidade.
   A infância soft divulgada pela mídia é a supressão da necessidade que o ser humano tem de resgatar algo que há muito deixou para trás: a doçura e a inocência de um tempo lúdico e imaculado, irreversível em sua vida, frente a realidade da vida adulta.
  Soft remete à leveza e a infância é um porto seguro emocional onde o ser humano encontra o alento para enfrentar as asperezas do cotidiano.
bebê soft



A erotização infantil


   Dos anos 80 para cá muitas mudanças ocorreram na sociedade e as crianças passaram a serem consumidoras e objetos de consumo. Pseudo-valores passaram a serem incorporados, em nome da modernidade dos tempos.
Nos anos 80 era assim - capa de disco infantil

   Nunca antes na história a criança teve esse papel, num panorama cultural que valoriza a sensualidade e o culto ao corpo, visando o consumo desenfreado, fomentando o desejo de possuir e os prazeres imediatos.
  A imagem da criança deixou de ser representada pela pureza e ingenuidade, passando a ser pela sensualidade, charme e liberdade. Muitos comerciais de televisão, anúncios em revistas e outros veículos de comunicação mostram crianças erotizadas, maquiadas, de salto alto e fazendo 'caras e bocas'.
  A infancia nem sempre teve a valorização que tem hoje, sendo suprimida por séculos, com a criança convivendo com os adultos sem nenhuma preocupação com direitos ou o que estava assimilando. Muitos consideravam as crianças "adultos em miniatura". 
  Os casos conhecidos de abuso sexual se proliferam e nunca se falou tanto em pedofilia e pornografia infantil. Os direitos das crianças começaram a serem analisados e muitas bandeiras foram erguidas com o intuito de preservar  a ingenuidade infantil. De certa forma, uma contradição - se defende a pureza infantil e se erotiza o universo da criança.
  A imagem da menina de hoje está cada vez mais exposta e os crimes acontecendo até dento de casa.   O apelo sensual começa cada vez mais cedo, matando a criança interior e deixando uma lacuna no desenvolvimento saudável desta fase da vida.

Muito se vê nas escolas, com crianças maquiadas, roupas inadequadas, cuecas saindo da calça, meninas ainda, mas sensualizando nos corredores e redes sociais. 

  A nova mentalidade dos anos 80 e 90 criou toda uma ideia de liberdade e novos conceitos, fez emergir uma criança erotizada  precocemente e roubou-lhe sua característica principal, a inocência.


                                                                   
                                                                       
                                                   



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Os primórdios e os interesses da escolarização

   Analisando a escolarização sob a perspectiva histórica, em seus primórdios, utilizando a leitura A MAQUINARIA ESCOLAR -http://www.pead.faced.ufrgs.br/sites/publico/eixo2/historia-infancias/maquinaria/- como referencia, posso destacar alguns tópicos, que descreverei a seguir.

Escola como instituição

   Somente a partir de meados do século XX a escola, para as classes populares, tornou-se publica, obrigatória e gratuita, sob o poder do Estado, em vista de manter as crianças na escola entre seis e dezesseis anos, afastando-as do trabalho infantil.

Interesses envolvidos

  Durante o Renascimento os homens da Igreja e os moralistas desejavam continuar com seu prestígio e poder frente as monarquias e novas formas administrativas.



  Formaram-se inúmeras congregações religiosas, com internatos e seminários, tornando-se necessário que pessoas fossem instruídas nos moldes do catolicismo, ou protestantes, e os princípios, desta forma, conservados.
A criança pobre seria ‘domesticada’ desde a tenra idade e iria seguir sua vida nos princípios e normas da religião, de acordo com a moral imposta, sendo objetos de dominação.

                                            

                                            Estrutura física

  A escola, desde os primórdios, no Renascimento, se constituiu em espaço fechado para isolar o aprendiz dos adultos e prazeres do mundo e suas influencias nocivas. Os meninos, além de aprender a ler e escrever, aprendiam os preceitos cristãos e a levar uma vida de retidão, visando desenvolver algum ofício no futuro, serem sacerdotes ou professores, conforme a inclinação de cada um. Obviamente que os conteúdos, para estes alunos, eram limitados, ficando longe das línguas, literaturas e esportes que distinguiam a categoria social. As carteiras enfileiradas definiam limites e promoviam o isolamento, necessários a disciplina e a ordem.



As pedagogias 

  Os castigos físicos aos poucos foram substituídos por um tratamento mais amoroso, principalmente pelos jesuítas. O aluno era estimulado a estudar, além de se tornar um cristão exemplar.


Aos poucos percebe-se a necessidade de graduar o aluno e separar conforme a idade, inteligência e condição.
As aulas passaram a ser no quadrado da sala, com atividades intensas e exercícios escritos, onde o aluno tinha deveres a cumprir, sem questionar. Os alunos passaram a prestar exames e participar de debates públicos, na presença de familiares, com ênfase no mérito individual e na busca do êxito escolar.

 O Professor 

   Inicialmente eram religiosos, e depois profissionais do Magistério, com o início da Escola Normal que estava incumbida de formá-los. Do professor era esperada uma conduta exemplar, dentro de rígidos padrões morais. O professor não detinha apenas o saber, mas técnicas de domínio de e domesticação. Os professores eram oriundos de classes intermediárias e admiravam a burguesia e seus valores. O professor recebia baixa remuneração, pois seu ofício era comparado a um sacerdócio, cheio de virtudes e além dos bens materiais.

Escola como instrumento de mudança  

  A partir da institucionalização da escola, esta passou a ser agente de transformação da sociedade, porém novamente subjugados ao poder de higienistas, filantropos e reformadores sociais, os novos moralizadores das massas. Era necessário manter a classe trabalhadora conformada, sem lutas sociais a fim de preservar a estabilidade política. A base da educação era o autoritarismo e a exigência da disciplina e da submissão do aluno ao professor, geralmente um representante do Estado, um servidor público, com cargo de respeito.